Eu acabei de reler As Vantagens de Ser Invisível pela terceira vez. E no meio das palavras de Charlie, senti vontade de colocar as minhas. Porque eu me reconheço inteira naquele livro. Para muitos, é apenas mais um livro infanto-juvenil com um protagonista raso e uma história clichê para agradar adolescentes que passam longe dos clássicos da literatura. De fato, esse não é nenhum livro carregado de palavras complexas ou referências simbólicas. São apenas cartas escritas por um adolescente narrando seus próprios dias. Mas nenhum livro é feito somente de palavras, mas também de espaços em branco. E são esses espaços que temos que aprender a ler.
A história de Charlie não é apenas sobre um adolescente lidando com inseguranças e situações difíceis da vida. Isso é o que suas palavras dizem. Mas há uma palavra essencial escondida entre as linhas, tão escondida que eu só achei na terceira vez que li: autoconhecimento. Charlie é uma pessoa que está se descobrindo enquanto indivíduo, aprendendo sobre o mundo e sobre si mesmo através dos seus próprios obstáculos. Tudo que acontece com ele – o suicídio do melhor amigo, os problemas familiares, a dificuldade de socialização e a paixão não correspondida – é a maneira do universo ensinar ele a reconhecer seu lugar diante dos outros e seu espaço no mundo. Todos nós também passamos por provas. Também lidamos com dificuldades, também temos que enfrentar medos e traumas. E nada disso é por acaso. Nem mesmo nos livros. Apesar de serem ficções, é importante reconhecer a realidade dentro daquele universo inventado.
O processo de autoconhecimento de certa forma nos torna invisíveis, pois não se pode conhecer a si mesmo pelos olhos dos outros. Temos que enxergar aquilo que os outros não enxergam. Automaticamente, nos tornamos mais introspectivos, fechados. Isso pode ser bom ou ruim. Ou bom e ruim. Quando Patrick chama Charlie de invisível, o faz como elogio. Charlie vê as coisas e fica quieto. Sabe guardar segredo. Sabe ouvir. É um bom amigo. Mas ao final do livro, temos as palavras de Sam nos mostrando que ser invisível demais não é bom. Charlie não consegue ser sincero. Esconde coisas de si mesmo. Não sabe se impor e é falso com os próprios sentimentos. Namora uma pessoa que não gosta. Gosta de outra pessoa em segredo. Coloca as necessidades dos outros acima das suas e acha que isso conta como amor.
Mas Charlie nunca fez por mal. Ele simplesmente não sabia. Ainda estava descobrindo como era existir e ser parte de algo. O que Charlie sabia dele mesmo era o que os outros falavam. Sua família, professores e colegas. Charlie só se conhecia pelos olhos dos outros. Aos próprios olhos, ainda era invisível.
E como em todo processo de autoconhecimento, Charlie também precisa lidar com traumas mal superados. Coisas que ele escondeu debaixo do tapete e fingiu que não o afetavam, mas ainda estavam ali e se manifestavam em traços de sua própria personalidade. Sua timidez. Sua relação com os livros. Até mesmo sua visão sobre amor.
Charlie sofreu abusos quando criança. Apesar dele não ter dito isso explicitamente nas cartas, quem prestou atenção nos momentos em que ele falava sobre tia Helen chegou facilmente a essa conclusão. Mas Charlie nunca odiou tia Helen. Pelo contrário, ele sempre falou dela com muito amor. Era a única que lhe dava dois presentes por ele fazer aniversário no natal. Era sua pessoa favorita no mundo. Ele ainda se culpa pela sua morte, já que ela havia sofrido um acidente de carro justamente indo buscar seus presentes. Charlie não aceitava que sua pessoa favorita pudesse lhe fazer mal. Então convenceu a si mesmo que aquele ato não era mau. Era só um ato de amor. Como lhe dar dois presentes.
Com isso, Charlie desenvolveu uma visão equivocada de amor. Aceita calado o que os outros fazem porque os ama. Namora uma garota com quem não tem nada em comum, mas ela gosta dele e namorar seria o certo a se fazer com alguém que gosta dele. Deixa o melhor amigo o beijar, mesmo que não quisesse isso, mas parecia o certo a se fazer por um amigo que está triste. Em nome do amor de outras pessoas, Charlie acaba negando o seu próprio. Mas não era por mal. Ele simplesmente não sabia. Porque desde o início ele se negou a aceitar a verdade. Porque daquele jeito doía menos. Mas cedo ou tarde ele iria encarar. E o universo lhe colocaria em outras situações estranhas para fazê-lo encarar. Porque ele precisava daquilo para conhecer a si mesmo. Para entender porque passava pelas coisas que passava. E para finalmente enxergar a verdade negada e mudar a maneira de compreender as coisas.
A frase mais famosa do livro – nós aceitamos o amor que achamos merecer – também se encaixa perfeitamente para Charlie. Quantas coisas ele não aceitou em nome de um "amor" que achava que merecia? E como ele iria saber o que realmente merece sem conhecer a si mesmo? E como conheceria a si mesmo se não tivesse passado por todas aquelas situações? Aceitar o amor que acha que merece não é somente sobre sua irmã apanhando do namorado ou sobre Patrick namorando alguém que tem vergonha dele. Mas também é sobre ele mesmo aceitando calado o que acontece ao seu redor; é sobre tia Helen o tocando; é sobre o beijo não desejado de Patrick; sobre a paixonite não correspondida por Sam; é sobre ele se sentir alheio ao mundo, desencaixado. É sobre a falta de amor próprio e auto estima e sobre buscar fugas em vez de encarar essas sombras. É sobre fingir que o suicídio do melhor amigo não o deixa triste, por não querer preocupar os outros, enquanto aquilo claramente lhe gerou outra série de traumas. É sobre nós também. Sobre sermos o Charlie em algumas situações.
Eu não poderia deixar de falar da minha frase favorita do livro, também uma das minhas favoritas da vida: "eu me sinto infinito" ou "eu poderia jurar que éramos infinitos". Esse é um dos poucos momentos do livro em que Charlie não é invisível. Ele sabe exatamente onde está, como ele está e, o mais importante, ele quer estar ali. Para mim, essa frase é seu momento de maior sinceridade. É o momento em que ele sabe seu lugar no mundo. E principalmente, é momento em que ele está feliz. Porque ele está naquele túnel com as pessoas que ele gosta ouvindo aquela música incrível. A noite está linda. A cidade está linda. E ele realmente se sente parte daquilo. É o entusiasmo de estar no lugar certo na hora certa, com as pessoas certas. É a total harmonia com ele mesmo e com o todo. Como se não faltasse mais nada. Clarice Lispector diria epifania. Aristóteles diria eudamonia. Todo protagonista tem um momento assim. E imagino que todo leitor já teve também.
Todos nós já fomos um Charlie em algum momento da vida. Todos passamos pelo processo do autoconhecimento. Todos já fomos invisíveis. Eu estou passando por isso agora e talvez por isso as cartas de Charlie tenham me impactado mais nessa terceira leitura. E por isso eu resolvi escrever. Porque Charlie, Sam e Patrick me ensinaram que era importante participar. Fazer coisas. Ser parte de algo. Pertencer, nem que seja a si mesmo. E tudo isso acontece naturalmente quando descobrimos quem somos. Essa descoberta não é fácil. É um processo que dói. É ter que encarar muitas vezes a parte ruim de nós. É ter que se voltar para dentro e arrumar a bagunça. Tirar a poeira debaixo do tapete. Encarar o que negamos. Enfrentar o que tememos. É como aprender a enxergar o que ninguém mais pode ver. Pode ser difícil, mas o resultado é sempre bom. No final, aprenderemos a aceitar o amor que realmente merecemos. No final, vamos rir de tudo naquele túnel com as pessoas que gostamos e aquela música incrível. E nos sentiremos infinitos. Mas até lá, não fuja dos seus processos. Afinal, ser invisível tem suas vantagens.
