domingo, 8 de janeiro de 2023

Resenha - Ensaio Sobre a Cegueira

Quando um leitor termina de ler um livro, ele tem vontade de ler outro. Quando um escritor termina de ler um livro, ele tem vontade de tê-lo escrito. E daí surgem as resenhas, numa tentativa de ser parte daquela obra, se não como um personagem, como um coautor. Dessa vez, a grande vítima dos meus devaneios foi Ensaio Sobre a Cegueira, um clássico de José Saramago. Enquanto escritora, me sinto na obrigação de encontrar a melhor combinação de palavras não só para materializar os meus sentimentos enquanto leitora, mas para manter o legado do autor e de sua obra, sem perder sua majestade estética. Enquanto eu lia as palavras de Saramago, eu me senti cega numa sala cheia de pessoas que enxergavam, o exato oposto da condição da mulher do médico, que se tornou os olhos de todos por ser a única a manter o sentido. Mas ao contrário do que se espera, na terra dos cegos, aquela que enxerga não se tornou rainha, mas também se reduziu a uma condição de cegueira por motivos que estavam além das suas vontades. Ela é a personagem responsável por transmitir a principal mensagem da obra, de que estar cego não é somente não enxergar, mas também não ser enxergado. Saramago traduz a cegueira não somente enquanto perda de visão, mas como perda da própria identidade, reduzindo os personagens a uma condição de sub-humanidade que é dada não só pela quarentena a qual eles estão submetidos, mas também pela ausência de nomes, sendo identificados, muito mal, por seus papéis sociais, que já nem possuem. Estar cego é estar incapacitado de cumprir seu papel, portanto, é estar inútil/invisível dentro do seu próprio meio. De certa forma, a mulher do médico assume a função principal de ser o ponto de conexão entre a história e o próprio leitor, visto que o narrador – mesmo em terceira pessoa – nos conta tudo a partir do ponto de vista dela, afinal, seria um paradoxo seguir os passos de um personagem cego. Saramago também nos poupa de grandes descrições cenográficas, nos dando apenas referenciais suficientes para reconhecer os locais e saber quantos passos seriam suficientes para ir de um ponto a outro; se pararmos pra pensar, isso é de uma genialidade indiscutível, pois a imersão em qualquer obra literária é feita com artifícios visuais, descrições detalhadas no local e dos personagens, nos fazendo sentir parte da história, mas em uma história de cegos, que diferença faz se a roupa da protagonista é preta ou branca, ou se as paredes do quarto estão pintadas de azul celeste ou de rosa bebê? Saramago provoca os outros sentidos do leitor, ao dar mais crédito aos diálogos do que ao cenário, e ainda o fazendo de forma não habitual, sem separações por aspas, travessões e nem sequer pontos de interrogação, visto que essas coisas são artifícios da linguagem escrita (ou seja, visuais); em vez disso, ele prefere estabelecer padrões lexicais nos personagens, para que possamos reconhecer aquele falante, como quem reconhece um familiar pelo tom de voz, mesmo se estiver de olhos fechados. Voltando para a mulher do médico, apesar de assumir posição de destaque na obra, ela ainda não é a personagem principal. Claramente a protagonista do livro é a própria Cegueira, pois ela é a  responsável pelos principais acontecimentos, como uma Musa que inspira os atos e os fatos, e  se expande para fora da obra, nos colocando em estado reflexivo. Ao contrário do que muitos pensam, a cegueira da narrativa não é uma metáfora sobre alienação ou coisa semelhante, mas  é a sua própria denotação, pois a ausência desse sentido seria capaz de provocar mudanças  significativas na sociedade como um todo, mudanças estas que metáfora alguma ainda foi capaz  de definir.

terça-feira, 29 de março de 2022

A velha mocinha

 



Em uma noite desdormida, quando já estava tão tarde que era quase cedo, li pela segunda vez um conto que me havia feito chorar de primeira. O nome era Viagem a Petrópolis, de Clarice Lispector. Ao final daquela segunda leitura, eu quis que meu texto também se escrevesse ali. Não uma continuação, tampouco uma releitura. Na verdade, eu nem estava preparada pra saber que rumos este texto tomaria. Poderia ser uma resenha informal, ou uma interpretação rasa, um desdobramento ou somente uma sequência de elogios formais. Fosse o que fosse, ali estava o meu Sim.

Comecemos pelo começo: Em Viagem a Petrópolis, Clarice nos entrega dois assuntos já conhecidos por seus leitores: O conflito entre os mundos interno e externo e a invisibilidade. Temas tipicamente Clariceanos. A personagem central é a musa das antíteses que se mostram ao longo do conto, a começar pelo seu apelido, Mocinha, mesmo já tendo mais de 90 anos. A personagem idosa é como um retrato falado de diversas juventudes; invisíveis, sem rumo, sem memórias e nem raízes. Que muito mal expressa seus sentimentos, pois já não se lembra do que é tê-los. Mocinha carrega nas costas uma carga de vivências, ao mesmo tempo que parece um peso morto para o mundo. Dorme de favor nas casas alheias, e durante o dia sai para passear. Sem destino, sem objeto.

Ao longo da história, vemos a vida voltando aos poucos para a senhora. Ela resgata a percepção de sua existência ao constatar a dureza da sua cama e até mesmo a própria fome que até então era despercebida. Momentos antes de viajar, ou melhor, de ter sido despachada, Mocinha reviveu. Reviveu dias pretéritos com seu marido, seus filhos, sua juventude, sua outrora vida, que agora parecia tão alheia. Após reviver, foi despachada como um objeto sem vida. E já chegou sem vida em Petrópolis, embora o texto só constate sua morte na última linha. Apesar dessa morte parecer repentina, ela já vinha sendo preparada desde as primeiras palavras; ao relembrar seus fatos e sensações passadas, a personagem se despedia do que um dia foi uma vida. Sua morte na linha final do texto é tão brusca e repentina justamente porque ela já estava desvivendo ao longo da narrativa – e antes, nas partes que não vimos.

Clarice foi muito perspicaz em cada detalhe desse texto, revelando a percepção gradativa da vida através do processo gradativo de morte. A história de Mocinha é contada como a de uma criança descobrindo o mundo. E se descobrindo gente. Aos poucos, sem pressa, descobre seus anseios internos – sua fome – e os receios externos – limites postos ou impostos.

Se mantivermos essa linha de pensamento, constatamos que a maior parte da obra de Clarice é uma espécie de processo gradativo de morte, compreendendo esta enquanto um destino, mas não como fim. A presença constante de epifanias, despertares, questionamentos irrespondíveis e reminiscências é o jeito clariceano de nos deixar frente a frente com um Algo tão grandioso que só pode estar além dessa existência. Na mesma via, porém em sentido oposto, Platão nos conta que antes de vir para esse mundo, o homem já conhecia o desconhecido, a grandiosidade do mundo das ideias. O que está além de nossa existência carnal já foi visto, é acessado através das reminiscências. Dessa forma, podemos compreender a morte como um retorno ao início, ao Algo. Não é por acaso que boa parte das narrativas, ao descrever uma cena de morte, diz que a vida inteira passa diante dos olhos. Ela é o antes e o depois. Assim como Mocinha, o início e o fim.

Em apenas um conto, Lispector é capaz de definir toda uma vida. É capaz de definir a vida em si, sob o ponto de vista da própria vida. Tudo que eu escrevo ou tento escrever sobre ela parece incompleto, justamente porque Clarice se escreve vivendo. Clarice se escreve até a morte.


domingo, 21 de fevereiro de 2021

Resenha - Cidade Invisível

 

 

Desde criança sou apaixonada por literatura e vivia imersa em grandes histórias sobre pessoas apaixonadas, pessoas enfrentando problemas, pessoas vivendo aventuras, pessoas boas, pessoas ruins, pessoas sendo pessoas. Com o tempo e a maturidade fui conhecendo cada vez mais novas histórias e novas pessoas, chegando finalmente à mitologia, que era não só uma história de ficção, mas uma crença sagrada para alguns povos. Eu me encantei pelos trabalhos de Héracles, pela jornada de Odisseu, pelos ventos de Iansã, pelo dragão de São Jorge e tantas outras figuras que não caberiam nesse espaço. E eu me perguntava onde estavam os deuses, santos e heróis daqueles que estavam próximos de mim, ou dos que vieram antes de mim. Não estava falando dos meus familiares ou colegas, mas sim, dos que pisavam e dominavam essa minha terra natal muito antes de meu espírito.

Inicialmente, foi meio frustrante. Ler sobre um moleque com uma carapuça na cabeça não se comparava a conhecer um homem que vestiu a pele de um leão. Ora, é isso que minha terra tem pra contar? Sim, era isso. E eu precisei de mais tempo e mais maturidade pra começar a apreciar aquelas histórias, que me foram apresentadas tão erradamente, mas que eram bem maiores do que eu poderia imaginar. Eu sabia que aquelas histórias estavam muito mais próximas de quem eu era do que qualquer outro mito, justamente por isso não me contentei com a visão rasa e infantil que me tentaram transmitir. Fui atrás deles sozinha.

            Outra decepção: não encontrei muita coisa além do eu já sabia. E isso só me fez perceber o quanto nós desvalorizamos nossa própria cultura. E nossos próprios nativos. Por que será que colocamos nossos pés tão longe de nosso próprio chão? Por que tomamos como inspiração as palavras e tradições de gente que nem sequer pisou aqui? Bem, talvez isso seja assunto para outro dia...

            Eu dei toda essa volta para chegar exatamente onde estou: ano de 2021, estreia da série Cidade Invisível, da Netflix. Sem dúvida um divisor de águas (e de opiniões). Cidade Invisível traz a união já conhecida da mitologia com a literatura, fazendo uma (re)apresentação das figuras que caminham por nossas terras e bocas há gerações. Figuras que nos foram apresentadas como “folclore” de maneira equivocada e subestimada, mas que estão longe de serem apenas histórias para criança dormir.

            Como todo mito, os personagens ali expostos devem ser lidos como símbolos e os contos não devem ser levados ao pé da letra. Quando se conta uma história, não pensamos somente na história em si, mas também nos seus interlocutores, aqueles que vão ouvir e futuramente também contar essa mesma história à sua própria maneira. Não é à toa que muitos mitos e muitas obras literárias costumam sofrer modificações ao longo do tempo. Não é uma questão de difamar ou tirar a essência do original, mas sim, adaptar aquele signo para outras realidades e outros mundos. Afinal, do que adianta uma história tão boa só ser falada e compreendida entre poucos? é nesse sentido que eu me encanto pelos pequenos detalhes dos personagens, como a carapuça do saci, que se transformou em uma bandana vermelha. Isso de forma alguma desrespeita ou tira a essência do mito, mas sim, expande essa mesma essência para outras realidades. Um símbolo claro dessa expansão é o fato das histórias se passarem no RJ e o boto cor-de-rosa se chamar Manaus e ainda aparecer em um local de água salgada. Aquilo não foi nenhum erro ou tentativa de apropriação. Aquilo foi a viagem do próprio mito e da própria tradição para outras terras, outros mundos.

            Alguns símbolos talvez sejam mais difíceis de captar, e aqui eu gostaria de dar um destaque especial à minha personagem favorita: Inês (ou Cuca, se preferirem). Cuca, que nem é originária do Brasil (algumas fontes dizem que ela foi trazida da Europa), se tornou um símbolo de terror para as crianças – e até para alguns adultos – seja pela ameaça de pegar os pequenos que se recusam a dormir, ou seja pela representação macabra apresentada em Sítio do Pica-pau Amarelo (para muitos, o primeiro contato com nossas lendas). Vindo de uma geração criada para temer as bruxas e tudo relacionado a elas, não é de se espantar que ela seja mostrada sempre de forma tão maldosa e grotesca. Mas pense por um minuto: Por que a “bruxa” precisa ser má? Se ela vem pegar as crianças choronas ou que não dormem, quem não garante que ela não seja justamente a entidade que vai acalmá-las? O que acontece com os mitos é que eles sempre foram usados para assustar, pois por muito tempo os homens condenavam tudo aquilo que era pagão. Seguindo essa linha, muitos pais usavam isso como um recurso pedagógico para conseguir a obediência dos filhos – nem preciso dizer o quanto essa ideia é furada, né?

Inês veio mudar justamente isso. Representada por Alessandra Negrini, vemos uma bruxa com traços finos, que fala baixo, e que, no fundo, só quer proteger os seus. Além disso, percebemos ao longo da temporada que ela é a entidade que está presente nos piores momentos das pessoas – na morte de um familiar, na rejeição, nos pesadelos, etc. isso significa que ela seja a criatura má responsável pelas desgraças? Não! O que ocorre ali é o acúmulo de energia ruim, que pode se transformar em um medo ou trauma que vai nos perseguir pelo resto da vida. É com esse olhar de medo e trauma que a Cuca é vista. É por esse tipo de sensação que ela é atraída. Devido ao fato de também ter sido rejeitada e também possuir seus traumas, Cuca/Inês se transformou nesse símbolo e nos mostra que, na verdade, não é dela que temos medo, mas de nós mesmos.

            Por falar em medo, não é só de coisas bonitas que vive a mitologia e muito menos a literatura. Figuras semelhantes ao Corpo-Seco aparecem em diversas histórias e diversos povos, apenas para nos mostrar que ninguém está livre dos efeitos da maldade. O mal existe, tal como o bem, não interessa de onde veio ou qual é o seu destino, não podemos deixar ele se acomodar... Mas às vezes deixamos. Nem sempre por sermos maus, mas sim, por estarmos vulneráveis, descuidados, ou até mesmo para proteger outra pessoa... isso lembra algo? Às vezes o mal pode fazer a gente esquecer nossa própria essência, nos distanciar de nós mesmos e de quem amamos, largar nossos objetivos e nos deixar impotentes, tal como o Curupira na cadeira de rodas. Mas o que os mitos sempre revelam é que se há um mal para cada coisa, também há um Bem maior para todas elas. E sempre há de haver algo que nos faça levantar da cadeira e ir atrás do nosso próprio Bem.

            Uma das coisas mais lindas mostradas na série – em minha opinião – está justamente em sua última cena, com Inês/Cuca, Camila/Iara, Iberê/Curupira, todos ao redor de Eric – humano. O que parece uma cena simples na verdade carrega o grande significado dos quatro elementos. Inês é o elemento Ar, levando em conta que ela se infiltra na mente das pessoas. Camila é o elemento Água, por motivos óbvios. Curupira, por ser guardião da floresta, atua como elemento Terra e quando as chamas acendem em sua cabeça, ele se torna elemento fogo. E ali temos a natureza em sua plenitude em volta de um humano, dizendo a ele que ele é parte daquilo. Cidade Invisível veio para mostrar que todos nós carregamos o divino e o sagrado em nosso sangue, mesmo que não saibamos. Mesmo que não acreditemos. Mesmo que tenhamos desistido deles. A natureza por si só é uma força, e essa força também está presente em cada um de nós.

            Um símbolo não se limita a quem o criou, assim como um livro não se limita somente ao seu autor. É um pouco frustrante ver que a série não agradou uma parte do público, não por questões de gosto, mas por não aceitarem as modificações feitas em relação à mitologia original. Ora, passamos anos querendo ouvir essas histórias sem o tom infantil e alegórico que passam nas escolas, passamos anos querendo conhecer nossos verdadeiros mitos. É inútil querer que tudo seja contado detalhadamente ao pé da letra, da exata maneira que era séculos atrás, pois a sociedade muda, a linguagem muda, a realidade muda, e os símbolos também mudam. Quem sabe a série não seja uma porta de entrada para a maior valorização da nossa própria cultura, quem sabe ela não abra nossos olhos para que vejamos que não precisamos ir à Grécia ou aos EUA para conhecer histórias fantásticas. É sobre isso que deveríamos estar falando. A Camila cantora de boate nos levará para a Iara Mãe D’água. Isac nos levará para o Saci. O Boto percorreu milhas e milhas em água salgada para nos chamar para conhecer as águas doces. É assim que as histórias se mantêm vivas. É dessa forma que carregamos o nosso passado, diretamente para o nosso futuro.


quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Para o Sr. Arrogante


Depois de ler o livro Para o Sr. Arrogante em praticamente 12 horas, estava em busca das melhores palavras para dizer à autora, pois queria que ela de fato soubesse o que eu estava sentindo naquele momento. Eu consegui dizer algumas, ela ficou feliz, mas eu percebi que algo ainda estava faltando e que eu só conseguiria me expressar completamente se eu escrevesse algo. Tenho certeza que ela entende esse sentimento.

Primeiramente, é inevitável sentir amor e ódio pelo Louis ao mesmo tempo. Mesmo ele agindo como um idiota a maioria das vezes, acabamos nos apegando ao seu jeito meio indiferente e egoísta, aquela armadura criada para se defender daquilo que havia se tornado a mãe dele. Essa aí já é um assunto à parte. Quando ao nosso príncipe/idiota francês, não tem como negar que é cativante, de um modo daria orgulho a qualquer Jane Austen da vida. Sua personalidade variante e contraditória parece fazer o encaixe perfeito com a inocência e pureza da personagem principal, Mei, que mesmo extremamente irritada por sua falsidade e arrogância, não deixava de se encantar com sua capacidade de enganar os outros, com os segredos que ele escondia, nem com aquele lindo par de olhos azuis.

E quem sabia de todas essas coisas mais do que ninguém era o Sr. Arrogante, amigo virtual e de identidade desconhecida para qual Mei escrevia todos os dias, graças a outro amigo que fez o favor de lhe passar o e-mail errado. Sr. Arrogante se tornou o diário de Mei, que às vezes apenas a ignorava, outras vezes a respondia rispidamente só pra ver se aquela garota desistia de ficar lhe mandando e-mails aleatórios todos os dias. A identidade dele fica óbvia no início do livro, mas ainda assim é divertido observar o quanto Mei é desatenta para os detalhes que estavam bem abaixo dos seus olhos puxados. E quando você acha que tudo aquilo já está ficando chato e forçado, a autora nos surpreende com a dúvida e nos faz questionar se realmente é tão óbvio assim, ou se estamos enganados por deixar alguma coisa passar. De qualquer maneira, Sr. Arrogante não deixa de fazer jus a esse apelido dado por Mei, mas é justamente essa característica que o torna um bom amigo e confidente para ela – e às vezes até para nós, leitores. Quantas vezes Mei foi ignorada, tendo seus e-mails largados em uma caixa de entrada qualquer...? Várias. Mas será que ela precisava mesmo de uma resposta em todos os momentos? Será que ela precisava de conselhos e palavras vazias o tempo todo? A resposta é óbvia. A coisa mais importante em todos aqueles e-mails não era seu destinatário, mas sim a própria mensagem, o próprio ato de desabafar sem esperar resposta. 

De uma forma peculiar, Sr. Arrogante se revelava um bom amigo, alguém que – lá no fundo – se importava com a pequena Mei. E ele ia demonstrando isso gradativamente, quando passou a responder um “bom dia”, lhe perguntar sobre detalhes banais e lhe aconselhar (mesmo que de forma rude). E nas frases mais simples, como “evite o escuro”, Mei encontrava um certo conforto vindo de quem ela nem sequer sabia o nome. Um dos melhores momentos entre os dois foi quando Mei estava sozinha em casa e a luz acabou no meio de um temporal, deixando-a no escuro e ainda por cima com uma trovoada. A japonesa foi em busca de consolo e acabou mais uma vez sendo alvo de arrogância e grosseria. Porém, com uma simples frase, percebemos as verdadeiras intenções do Sr. Arrogante, que usou de toda sua grosseria para provocar uma discussão e assim tirar o foco das trovoadas e da escuridão. De fato, havia um coração bom por trás de toda arrogância.

E por falar em coração... voltemos ao idiota francês, que a cada dia deixava a pequena japonesa mais confusa. Afinal, por que, entre tantas garotas que babavam por ele, ele escolhera justo ela para ser sua namorada de mentira? Por que ele passava uma imagem de príncipe na escola, mas era mal educado com as outras pessoas? Bem, o próprio livro já responde essas perguntas e eu não estou aqui pra fazer um resumo dele. Junto com Mei, fomos descobrindo aos poucos o que aquele jovem príncipe/idiota escondia e, também junto com ela, fomos desvendando o seu melhor lado e nos apaixonando – e negando – a cada página lida. Mas por baixo daquele idiota, realmente se escondia um príncipe, e esse príncipe se revelava pouco a pouco: tocando piano; conversando com sua prima; salvando Mei do escuro no ginásio, após ela ser vítima de uma brincadeira de mau gosto; fazendo massagem para aliviar sua cólica, inclusive indo pesquisar sobre o assunto... Sem querer, Mei despertava seu lado mais doce e o fazia recuperar o brilho e a paixão pela vida, que ele havia perdido anos antes. Não demorou muito para que aquele namoro falso se transformasse em um sentimento verdadeiro, embora ainda escondido por trás de uma grande camada de arrogância.

E por mais que eu odeie admitir isso, foi impossível não me apaixonar pelo Louis. Lá no fundo, era perceptível que ele tinha uma boa razão para agir como agia e fazer o que fazia. Ele próprio vivia em um conflito interno, uma briga de sentimentos com os quais ele não sabia lidar e que manifestavam em forma de ignorância. No início, ele apenas se importava consigo mesmo, querendo usar Mei apenas para escapar de uma imposição rígida de sua mãe. Depois, ele passou a se importar com ela, mas não queria admitir que a menina de olhos puxados lhe provocava uma sensação boa, então a tratava com arrogância apenas pra ver se mantinha ela distante e continuava a usando apenas para seu benefício. Mas a verdade nunca se esconde por muito tempo e Louis logo dava sinais de que sentia algo a mais e não podia mais suportar ver ela sendo humilhada por culpa de sua própria chantagem. Quem não ama um bom clichê de amor falso se tornando real? É impossível não ficar de coração quentinho ao ir percebendo os sinais que Louis deixava, quando tocaram juntos e ficaram pelo menos alguns minutos sem discutir; quando se mordeu de ciúmes dela na praia e no evento de anime; e, finalmente, quando tomou seus lábios no dia da festa de gala, correspondendo a declaração da própria Mei e contrariando a fúria da sua mãe.

Aliás, vamos ter que falar do monstro, né? Helouise Calvet é a prova de que a falta de amor – inclusive o próprio – é um verdadeiro veneno que corrói a alma e o coração de um ser humano, podendo inclusive o adoecer e o enlouquecer. Ela era a causa de tudo de ruim que acontecia na história, seja fisicamente ou emocionalmente. Helouise nutria ódio pelo próprio filho, que gerou somente com o objetivo de conquistar o homem que amava. Aliás, será mesmo que o amava? Ou o que ela sentia por Jacques era simplesmente fruto do seu orgulho e ego feridos? O resultado do sentimento de amor e reciprocidade que ela nunca havia experimentado. Isso explica o seu enlouquecimento após a morte dele, afinal, em sua cabeça, ele era o único que poderia suprir todo o seu vazio. Mas nem mesmo um filho foi capaz de fazê-lo se apaixonar, o que aumentou ainda mais a frustração de Helouise, que continuava sem saber o que era ser amada – e assim, sem saber o que era amar.

Vou ter que abrir um parêntese para falar sobre Miguel. É curioso e até simbólico que sua primeira aparição para Mei tenha sido justamente em um dos momentos em que Louis agia como idiota. Cheguei a pensar que haveria alguma história de amor entre os dois, mesmo que o casal principal do livro já estivesse formado nas entrelinhas. Eu não estava tão errada. Afinal, quem disse que amor envolve paixão? Na ajuda que Mei prestou no primeiro “encontro” dos dois, no chocolate que Miguel deu a ela da segunda vez, no apoio e nas palavras de conforto após um momento difícil, nas risadas entre as conversas mais engraçadas e principalmente nos conselhos, ali estava o amor dos dois. Eu poderia me estender e falar sobre todos os amigos de Mei: Jess, Victor, Letizia e até o Pierre (embora esse tenha menos impacto na minha opinião). A autora trabalha o amor de várias formas ao longo do livro, e esses personagens, sem dúvida, são a personificação do tipo de amor mais divertido, simples e puro que alguém poderia ter. Amizade é uma das relações mais fortes que se pode ter com alguém e, conhecendo a autora, posso dizer que ela pensa a mesma coisa, por isso faz tanta questão de dar ênfase também ao núcleo de amigos da protagonista, sem deixar tudo focado apenas no relacionamento amoroso, o que traz um clima bastante agradável em várias partes da história.

Depois de acompanhar toda a história, de me apaixonar e me desapaixonar pelo Louis diversas vezes, depois de rir, chorar, me irritar e sonhar acordada várias vezes, o que eu posso dizer é que estou orgulhosa de ser amiga dessa escritora fantástica, que me levou de volta a adolescência e me relembrou que não é só de Lispector’s e Drummond’s que vive a literatura. Às vezes tudo que precisamos são palavras simples, romances clichês e cenas que nos coloquem um sorriso bobo no rosto e nos mostrem que na maioria das vezes só queremos um Sr. Arrogante pra desabafar, uma Mei pra falar de animes, um Miguel pra nos trazer chocolates, e um Louis para nos apaixonar. Literatura é isso. É lembrar do que parece esquecido, é nos olhar pelos olhos de outro, é dar uma pausa no cotidiano. E foi exatamente isso que Porto nos entregou de presente ao escrever. 


quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Ser Invisível tem suas Vantagens

      Eu acabei de reler As Vantagens de Ser Invisível pela terceira vez. E no meio das palavras de Charlie, senti vontade de colocar as minhas. Porque eu me reconheço inteira naquele livro. Para muitos, é apenas mais um livro infanto-juvenil com um protagonista raso e uma história clichê para agradar adolescentes que passam longe dos clássicos da literatura. De fato, esse não é nenhum livro carregado de palavras complexas ou referências simbólicas. São apenas cartas escritas por um adolescente narrando seus próprios dias. Mas nenhum livro é feito somente de palavras, mas também de espaços em branco. E são esses espaços que temos que aprender a ler.

      A história de Charlie não é apenas sobre um adolescente lidando com inseguranças e situações difíceis da vida. Isso é o que suas palavras dizem. Mas há uma palavra essencial escondida entre as linhas, tão escondida que eu só achei na terceira vez que li: autoconhecimento. Charlie é uma pessoa que está se descobrindo enquanto indivíduo, aprendendo sobre o mundo e sobre si mesmo através dos seus próprios obstáculos. Tudo que acontece com ele – o suicídio do melhor amigo, os problemas familiares, a dificuldade de socialização e a paixão não correspondida – é a maneira do universo ensinar ele a reconhecer seu lugar diante dos outros e seu espaço no mundo. Todos nós também passamos por provas. Também lidamos com dificuldades, também temos que enfrentar medos e traumas. E nada disso é por acaso. Nem mesmo nos livros. Apesar de serem ficções, é importante reconhecer a realidade dentro daquele universo inventado.

      O processo de autoconhecimento de certa forma nos torna invisíveis, pois não se pode conhecer a si mesmo pelos olhos dos outros. Temos que enxergar aquilo que os outros não enxergam. Automaticamente, nos tornamos mais introspectivos, fechados. Isso pode ser bom ou ruim. Ou bom e ruim. Quando Patrick chama Charlie de invisível, o faz como elogio. Charlie vê as coisas e fica quieto. Sabe guardar segredo. Sabe ouvir. É um bom amigo. Mas ao final do livro, temos as palavras de Sam nos mostrando que ser invisível demais não é bom. Charlie não consegue ser sincero. Esconde coisas de si mesmo. Não sabe se impor e é falso com os próprios sentimentos. Namora uma pessoa que não gosta. Gosta de outra pessoa em segredo. Coloca as necessidades dos outros acima das suas e acha que isso conta como amor.

      Mas Charlie nunca fez por mal. Ele simplesmente não sabia. Ainda estava descobrindo como era existir e ser parte de algo. O que Charlie sabia dele mesmo era o que os outros falavam. Sua família, professores e colegas. Charlie só se conhecia pelos olhos dos outros. Aos próprios olhos, ainda era invisível.

      E como em todo processo de autoconhecimento, Charlie também precisa lidar com traumas mal superados. Coisas que ele escondeu debaixo do tapete e fingiu que não o afetavam, mas ainda estavam ali e se manifestavam em traços de sua própria personalidade. Sua timidez. Sua relação com os livros. Até mesmo sua visão sobre amor. 

Charlie sofreu abusos quando criança. Apesar dele não ter dito isso explicitamente nas cartas, quem prestou atenção nos momentos em que ele falava sobre tia Helen chegou facilmente a essa conclusão. Mas Charlie nunca odiou tia Helen. Pelo contrário, ele sempre falou dela com muito amor. Era a única que lhe dava dois presentes por ele fazer aniversário no natal. Era sua pessoa favorita no mundo. Ele ainda se culpa pela sua morte, já que ela havia sofrido um acidente de carro justamente indo buscar seus presentes. Charlie não aceitava que sua pessoa favorita pudesse lhe fazer mal. Então convenceu a si mesmo que aquele ato não era mau. Era só um ato de amor. Como lhe dar dois presentes.

      Com isso, Charlie desenvolveu uma visão equivocada de amor. Aceita calado o que os outros fazem porque os ama. Namora uma garota com quem não tem nada em comum, mas ela gosta dele e namorar seria o certo a se fazer com alguém que gosta dele. Deixa o melhor amigo o beijar, mesmo que não quisesse isso, mas parecia o certo a se fazer por um amigo que está triste. Em nome do amor de outras pessoas, Charlie acaba negando o seu próprio. Mas não era por mal. Ele simplesmente não sabia. Porque desde o início ele se negou a aceitar a verdade. Porque daquele jeito doía menos. Mas cedo ou tarde ele iria encarar. E o universo lhe colocaria em outras situações estranhas para fazê-lo encarar. Porque ele precisava daquilo para conhecer a si mesmo. Para entender porque passava pelas coisas que passava. E para finalmente enxergar a verdade negada e mudar a maneira de compreender as coisas.

      A frase mais famosa do livro – nós aceitamos o amor que achamos merecer – também se encaixa perfeitamente para Charlie. Quantas coisas ele não aceitou em nome de um "amor" que achava que merecia? E como ele iria saber o que realmente merece sem conhecer a si mesmo? E como conheceria a si mesmo se não tivesse passado por todas aquelas situações? Aceitar o amor que acha que merece não é somente sobre sua irmã apanhando do namorado ou sobre Patrick namorando alguém que tem vergonha dele. Mas também é sobre ele mesmo aceitando calado o que acontece ao seu redor; é sobre tia Helen o tocando; é sobre o beijo não desejado de Patrick; sobre a paixonite não correspondida por Sam; é sobre ele se sentir alheio ao mundo, desencaixado. É sobre a falta de amor próprio e auto estima e sobre buscar fugas em vez de encarar essas sombras. É sobre fingir que o suicídio do melhor amigo não o deixa triste, por não querer preocupar os outros, enquanto aquilo claramente lhe gerou outra série de traumas. É sobre nós também. Sobre sermos o Charlie em algumas situações.

      Eu não poderia deixar de falar da minha frase favorita do livro, também uma das minhas favoritas da vida: "eu me sinto infinito" ou "eu poderia jurar que éramos infinitos". Esse é um dos poucos momentos do livro em que Charlie não é invisível. Ele sabe exatamente onde está, como ele está e, o mais importante, ele quer estar ali. Para mim, essa frase é seu momento de maior sinceridade. É o momento em que ele sabe seu lugar no mundo. E principalmente, é momento em que ele está feliz. Porque ele está naquele túnel com as pessoas que ele gosta ouvindo aquela música incrível. A noite está linda. A cidade está linda. E ele realmente se sente parte daquilo. É o entusiasmo de estar no lugar certo na hora certa, com as pessoas certas. É a total harmonia com ele mesmo e com o todo. Como se não faltasse mais nada. Clarice Lispector diria epifania. Aristóteles diria eudamonia. Todo protagonista tem um momento assim. E imagino que todo leitor já teve também.

      Todos nós já fomos um Charlie em algum momento da vida. Todos passamos pelo processo do autoconhecimento. Todos já fomos invisíveis. Eu estou passando por isso agora e talvez por isso as cartas de Charlie tenham me impactado mais nessa terceira leitura. E por isso eu resolvi escrever. Porque Charlie, Sam e Patrick me ensinaram que era importante participar. Fazer coisas. Ser parte de algo. Pertencer, nem que seja a si mesmo. E tudo isso acontece naturalmente quando descobrimos quem  somos. Essa descoberta não é fácil. É um processo que dói. É ter que encarar muitas vezes a parte ruim de nós. É ter que se voltar para dentro e arrumar a bagunça. Tirar a poeira debaixo do tapete. Encarar o que negamos. Enfrentar o que tememos. É como aprender a enxergar o que ninguém mais pode ver. Pode ser difícil, mas o resultado é sempre bom. No final, aprenderemos a aceitar o amor que realmente merecemos. No final, vamos rir de tudo naquele túnel com as pessoas que gostamos e aquela música incrível. E nos sentiremos infinitos. Mas até lá, não fuja dos seus processos. Afinal, ser invisível tem suas vantagens.


Resenha - Ensaio Sobre a Cegueira

Quando um leitor termina de ler um livro, ele tem vontade de ler outro. Quando um escritor termina de ler um livro, ele tem vontade de tê-l...