Desde
criança sou apaixonada por literatura e vivia imersa em grandes histórias sobre
pessoas apaixonadas, pessoas enfrentando problemas, pessoas vivendo aventuras,
pessoas boas, pessoas ruins, pessoas sendo pessoas. Com o tempo e a maturidade
fui conhecendo cada vez mais novas histórias e novas pessoas, chegando
finalmente à mitologia, que era não só uma história de ficção, mas uma crença
sagrada para alguns povos. Eu me encantei pelos trabalhos de Héracles, pela
jornada de Odisseu, pelos ventos de Iansã, pelo dragão de São Jorge e tantas
outras figuras que não caberiam nesse espaço. E eu me perguntava onde estavam
os deuses, santos e heróis daqueles que estavam próximos de mim, ou dos que
vieram antes de mim. Não estava falando dos meus familiares ou colegas, mas
sim, dos que pisavam e dominavam essa minha terra natal muito antes de meu
espírito.
Inicialmente,
foi meio frustrante. Ler sobre um moleque com uma carapuça na cabeça não se
comparava a conhecer um homem que vestiu a pele de um leão. Ora, é isso que
minha terra tem pra contar? Sim, era isso. E eu precisei de mais tempo e mais
maturidade pra começar a apreciar aquelas histórias, que me foram apresentadas
tão erradamente, mas que eram bem maiores do que eu poderia imaginar. Eu sabia
que aquelas histórias estavam muito mais próximas de quem eu era do que
qualquer outro mito, justamente por isso não me contentei com a visão rasa e infantil
que me tentaram transmitir. Fui atrás deles sozinha.
Outra decepção: não encontrei muita coisa além do eu já
sabia. E isso só me fez perceber o quanto nós desvalorizamos nossa própria
cultura. E nossos próprios nativos. Por que será que colocamos nossos pés tão
longe de nosso próprio chão? Por que tomamos como inspiração as palavras e
tradições de gente que nem sequer pisou aqui? Bem, talvez isso seja assunto
para outro dia...
Eu dei toda essa volta para chegar exatamente onde estou:
ano de 2021, estreia da série Cidade Invisível, da Netflix. Sem dúvida um
divisor de águas (e de opiniões). Cidade Invisível traz a união já conhecida da
mitologia com a literatura, fazendo uma (re)apresentação das figuras que
caminham por nossas terras e bocas há gerações. Figuras que nos foram
apresentadas como “folclore” de maneira equivocada e subestimada, mas que estão
longe de serem apenas histórias para criança dormir.
Como todo mito, os personagens ali expostos devem ser
lidos como símbolos e os contos não devem ser levados ao pé da letra. Quando se
conta uma história, não pensamos somente na história em si, mas também nos seus
interlocutores, aqueles que vão ouvir e futuramente também contar essa mesma
história à sua própria maneira. Não é à toa que muitos mitos e muitas obras
literárias costumam sofrer modificações ao longo do tempo. Não é uma questão de
difamar ou tirar a essência do original, mas sim, adaptar aquele signo para
outras realidades e outros mundos. Afinal, do que adianta uma história tão boa
só ser falada e compreendida entre poucos? é nesse sentido que eu me encanto
pelos pequenos detalhes dos personagens, como a carapuça do saci, que se
transformou em uma bandana vermelha. Isso de forma alguma desrespeita ou tira a
essência do mito, mas sim, expande essa mesma essência para outras realidades. Um
símbolo claro dessa expansão é o fato das histórias se passarem no RJ e o boto
cor-de-rosa se chamar Manaus e ainda aparecer em um local de água salgada.
Aquilo não foi nenhum erro ou tentativa de apropriação. Aquilo foi a viagem do
próprio mito e da própria tradição para outras terras, outros mundos.
Alguns símbolos talvez sejam mais difíceis de captar, e
aqui eu gostaria de dar um destaque especial à minha personagem favorita: Inês
(ou Cuca, se preferirem). Cuca, que nem é originária do Brasil (algumas fontes
dizem que ela foi trazida da Europa), se tornou um símbolo de terror para as
crianças – e até para alguns adultos – seja pela ameaça de pegar os pequenos
que se recusam a dormir, ou seja pela representação macabra apresentada em Sítio
do Pica-pau Amarelo (para muitos, o primeiro contato com nossas lendas).
Vindo de uma geração criada para temer as bruxas e tudo relacionado a elas, não
é de se espantar que ela seja mostrada sempre de forma tão maldosa e grotesca. Mas
pense por um minuto: Por que a “bruxa” precisa ser má? Se ela vem pegar as
crianças choronas ou que não dormem, quem não garante que ela não seja
justamente a entidade que vai acalmá-las? O que acontece com os mitos é que
eles sempre foram usados para assustar, pois por muito tempo os homens
condenavam tudo aquilo que era pagão. Seguindo essa linha, muitos pais usavam
isso como um recurso pedagógico para conseguir a obediência dos filhos – nem
preciso dizer o quanto essa ideia é furada, né?
Inês
veio mudar justamente isso. Representada por Alessandra Negrini, vemos uma
bruxa com traços finos, que fala baixo, e que, no fundo, só quer proteger os
seus. Além disso, percebemos ao longo da temporada que ela é a entidade que
está presente nos piores momentos das pessoas – na morte de um familiar, na
rejeição, nos pesadelos, etc. isso significa que ela seja a criatura má
responsável pelas desgraças? Não! O que ocorre ali é o acúmulo de energia ruim,
que pode se transformar em um medo ou trauma que vai nos perseguir pelo resto
da vida. É com esse olhar de medo e trauma que a Cuca é vista. É por esse tipo
de sensação que ela é atraída. Devido ao fato de também ter sido rejeitada e
também possuir seus traumas, Cuca/Inês se transformou nesse símbolo e nos
mostra que, na verdade, não é dela que temos medo, mas de nós mesmos.
Por falar em medo, não é só de coisas bonitas que vive a
mitologia e muito menos a literatura. Figuras semelhantes ao Corpo-Seco
aparecem em diversas histórias e diversos povos, apenas para nos mostrar que
ninguém está livre dos efeitos da maldade. O mal existe, tal como o bem, não
interessa de onde veio ou qual é o seu destino, não podemos deixar ele se
acomodar... Mas às vezes deixamos. Nem sempre por sermos maus, mas sim, por
estarmos vulneráveis, descuidados, ou até mesmo para proteger outra pessoa...
isso lembra algo? Às vezes o mal pode fazer a gente esquecer nossa própria
essência, nos distanciar de nós mesmos e de quem amamos, largar nossos
objetivos e nos deixar impotentes, tal como o Curupira na cadeira de rodas. Mas
o que os mitos sempre revelam é que se há um mal para cada coisa, também há um
Bem maior para todas elas. E sempre há de haver algo que nos faça levantar da
cadeira e ir atrás do nosso próprio Bem.
Uma das coisas mais lindas mostradas na série – em minha
opinião – está justamente em sua última cena, com Inês/Cuca, Camila/Iara,
Iberê/Curupira, todos ao redor de Eric – humano. O que parece uma cena simples
na verdade carrega o grande significado dos quatro elementos. Inês é o elemento
Ar, levando em conta que ela se infiltra na mente das pessoas. Camila é o
elemento Água, por motivos óbvios. Curupira, por ser guardião da floresta, atua
como elemento Terra e quando as chamas acendem em sua cabeça, ele se torna
elemento fogo. E ali temos a natureza em sua plenitude em volta de um humano,
dizendo a ele que ele é parte daquilo. Cidade Invisível veio para mostrar que
todos nós carregamos o divino e o sagrado em nosso sangue, mesmo que não
saibamos. Mesmo que não acreditemos. Mesmo que tenhamos desistido deles. A
natureza por si só é uma força, e essa força também está presente em cada um de
nós.
Um símbolo não se limita a quem o criou, assim como um
livro não se limita somente ao seu autor. É um pouco frustrante ver que a série
não agradou uma parte do público, não por questões de gosto, mas por não
aceitarem as modificações feitas em relação à mitologia original. Ora, passamos
anos querendo ouvir essas histórias sem o tom infantil e alegórico que passam
nas escolas, passamos anos querendo conhecer nossos verdadeiros mitos. É inútil
querer que tudo seja contado detalhadamente ao pé da letra, da exata maneira
que era séculos atrás, pois a sociedade muda, a linguagem muda, a realidade
muda, e os símbolos também mudam. Quem sabe a série não seja uma porta de
entrada para a maior valorização da nossa própria cultura, quem sabe ela não
abra nossos olhos para que vejamos que não precisamos ir à Grécia ou aos EUA
para conhecer histórias fantásticas. É sobre isso que deveríamos estar falando.
A Camila cantora de boate nos levará para a Iara Mãe D’água. Isac nos levará
para o Saci. O Boto percorreu milhas e milhas em água salgada para nos chamar
para conhecer as águas doces. É assim que as histórias se mantêm vivas. É dessa
forma que carregamos o nosso passado, diretamente para o nosso futuro.

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