domingo, 8 de janeiro de 2023

Resenha - Ensaio Sobre a Cegueira

Quando um leitor termina de ler um livro, ele tem vontade de ler outro. Quando um escritor termina de ler um livro, ele tem vontade de tê-lo escrito. E daí surgem as resenhas, numa tentativa de ser parte daquela obra, se não como um personagem, como um coautor. Dessa vez, a grande vítima dos meus devaneios foi Ensaio Sobre a Cegueira, um clássico de José Saramago. Enquanto escritora, me sinto na obrigação de encontrar a melhor combinação de palavras não só para materializar os meus sentimentos enquanto leitora, mas para manter o legado do autor e de sua obra, sem perder sua majestade estética. Enquanto eu lia as palavras de Saramago, eu me senti cega numa sala cheia de pessoas que enxergavam, o exato oposto da condição da mulher do médico, que se tornou os olhos de todos por ser a única a manter o sentido. Mas ao contrário do que se espera, na terra dos cegos, aquela que enxerga não se tornou rainha, mas também se reduziu a uma condição de cegueira por motivos que estavam além das suas vontades. Ela é a personagem responsável por transmitir a principal mensagem da obra, de que estar cego não é somente não enxergar, mas também não ser enxergado. Saramago traduz a cegueira não somente enquanto perda de visão, mas como perda da própria identidade, reduzindo os personagens a uma condição de sub-humanidade que é dada não só pela quarentena a qual eles estão submetidos, mas também pela ausência de nomes, sendo identificados, muito mal, por seus papéis sociais, que já nem possuem. Estar cego é estar incapacitado de cumprir seu papel, portanto, é estar inútil/invisível dentro do seu próprio meio. De certa forma, a mulher do médico assume a função principal de ser o ponto de conexão entre a história e o próprio leitor, visto que o narrador – mesmo em terceira pessoa – nos conta tudo a partir do ponto de vista dela, afinal, seria um paradoxo seguir os passos de um personagem cego. Saramago também nos poupa de grandes descrições cenográficas, nos dando apenas referenciais suficientes para reconhecer os locais e saber quantos passos seriam suficientes para ir de um ponto a outro; se pararmos pra pensar, isso é de uma genialidade indiscutível, pois a imersão em qualquer obra literária é feita com artifícios visuais, descrições detalhadas no local e dos personagens, nos fazendo sentir parte da história, mas em uma história de cegos, que diferença faz se a roupa da protagonista é preta ou branca, ou se as paredes do quarto estão pintadas de azul celeste ou de rosa bebê? Saramago provoca os outros sentidos do leitor, ao dar mais crédito aos diálogos do que ao cenário, e ainda o fazendo de forma não habitual, sem separações por aspas, travessões e nem sequer pontos de interrogação, visto que essas coisas são artifícios da linguagem escrita (ou seja, visuais); em vez disso, ele prefere estabelecer padrões lexicais nos personagens, para que possamos reconhecer aquele falante, como quem reconhece um familiar pelo tom de voz, mesmo se estiver de olhos fechados. Voltando para a mulher do médico, apesar de assumir posição de destaque na obra, ela ainda não é a personagem principal. Claramente a protagonista do livro é a própria Cegueira, pois ela é a  responsável pelos principais acontecimentos, como uma Musa que inspira os atos e os fatos, e  se expande para fora da obra, nos colocando em estado reflexivo. Ao contrário do que muitos pensam, a cegueira da narrativa não é uma metáfora sobre alienação ou coisa semelhante, mas  é a sua própria denotação, pois a ausência desse sentido seria capaz de provocar mudanças  significativas na sociedade como um todo, mudanças estas que metáfora alguma ainda foi capaz  de definir.

Resenha - Ensaio Sobre a Cegueira

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