quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

Para o Sr. Arrogante


Depois de ler o livro Para o Sr. Arrogante em praticamente 12 horas, estava em busca das melhores palavras para dizer à autora, pois queria que ela de fato soubesse o que eu estava sentindo naquele momento. Eu consegui dizer algumas, ela ficou feliz, mas eu percebi que algo ainda estava faltando e que eu só conseguiria me expressar completamente se eu escrevesse algo. Tenho certeza que ela entende esse sentimento.

Primeiramente, é inevitável sentir amor e ódio pelo Louis ao mesmo tempo. Mesmo ele agindo como um idiota a maioria das vezes, acabamos nos apegando ao seu jeito meio indiferente e egoísta, aquela armadura criada para se defender daquilo que havia se tornado a mãe dele. Essa aí já é um assunto à parte. Quando ao nosso príncipe/idiota francês, não tem como negar que é cativante, de um modo daria orgulho a qualquer Jane Austen da vida. Sua personalidade variante e contraditória parece fazer o encaixe perfeito com a inocência e pureza da personagem principal, Mei, que mesmo extremamente irritada por sua falsidade e arrogância, não deixava de se encantar com sua capacidade de enganar os outros, com os segredos que ele escondia, nem com aquele lindo par de olhos azuis.

E quem sabia de todas essas coisas mais do que ninguém era o Sr. Arrogante, amigo virtual e de identidade desconhecida para qual Mei escrevia todos os dias, graças a outro amigo que fez o favor de lhe passar o e-mail errado. Sr. Arrogante se tornou o diário de Mei, que às vezes apenas a ignorava, outras vezes a respondia rispidamente só pra ver se aquela garota desistia de ficar lhe mandando e-mails aleatórios todos os dias. A identidade dele fica óbvia no início do livro, mas ainda assim é divertido observar o quanto Mei é desatenta para os detalhes que estavam bem abaixo dos seus olhos puxados. E quando você acha que tudo aquilo já está ficando chato e forçado, a autora nos surpreende com a dúvida e nos faz questionar se realmente é tão óbvio assim, ou se estamos enganados por deixar alguma coisa passar. De qualquer maneira, Sr. Arrogante não deixa de fazer jus a esse apelido dado por Mei, mas é justamente essa característica que o torna um bom amigo e confidente para ela – e às vezes até para nós, leitores. Quantas vezes Mei foi ignorada, tendo seus e-mails largados em uma caixa de entrada qualquer...? Várias. Mas será que ela precisava mesmo de uma resposta em todos os momentos? Será que ela precisava de conselhos e palavras vazias o tempo todo? A resposta é óbvia. A coisa mais importante em todos aqueles e-mails não era seu destinatário, mas sim a própria mensagem, o próprio ato de desabafar sem esperar resposta. 

De uma forma peculiar, Sr. Arrogante se revelava um bom amigo, alguém que – lá no fundo – se importava com a pequena Mei. E ele ia demonstrando isso gradativamente, quando passou a responder um “bom dia”, lhe perguntar sobre detalhes banais e lhe aconselhar (mesmo que de forma rude). E nas frases mais simples, como “evite o escuro”, Mei encontrava um certo conforto vindo de quem ela nem sequer sabia o nome. Um dos melhores momentos entre os dois foi quando Mei estava sozinha em casa e a luz acabou no meio de um temporal, deixando-a no escuro e ainda por cima com uma trovoada. A japonesa foi em busca de consolo e acabou mais uma vez sendo alvo de arrogância e grosseria. Porém, com uma simples frase, percebemos as verdadeiras intenções do Sr. Arrogante, que usou de toda sua grosseria para provocar uma discussão e assim tirar o foco das trovoadas e da escuridão. De fato, havia um coração bom por trás de toda arrogância.

E por falar em coração... voltemos ao idiota francês, que a cada dia deixava a pequena japonesa mais confusa. Afinal, por que, entre tantas garotas que babavam por ele, ele escolhera justo ela para ser sua namorada de mentira? Por que ele passava uma imagem de príncipe na escola, mas era mal educado com as outras pessoas? Bem, o próprio livro já responde essas perguntas e eu não estou aqui pra fazer um resumo dele. Junto com Mei, fomos descobrindo aos poucos o que aquele jovem príncipe/idiota escondia e, também junto com ela, fomos desvendando o seu melhor lado e nos apaixonando – e negando – a cada página lida. Mas por baixo daquele idiota, realmente se escondia um príncipe, e esse príncipe se revelava pouco a pouco: tocando piano; conversando com sua prima; salvando Mei do escuro no ginásio, após ela ser vítima de uma brincadeira de mau gosto; fazendo massagem para aliviar sua cólica, inclusive indo pesquisar sobre o assunto... Sem querer, Mei despertava seu lado mais doce e o fazia recuperar o brilho e a paixão pela vida, que ele havia perdido anos antes. Não demorou muito para que aquele namoro falso se transformasse em um sentimento verdadeiro, embora ainda escondido por trás de uma grande camada de arrogância.

E por mais que eu odeie admitir isso, foi impossível não me apaixonar pelo Louis. Lá no fundo, era perceptível que ele tinha uma boa razão para agir como agia e fazer o que fazia. Ele próprio vivia em um conflito interno, uma briga de sentimentos com os quais ele não sabia lidar e que manifestavam em forma de ignorância. No início, ele apenas se importava consigo mesmo, querendo usar Mei apenas para escapar de uma imposição rígida de sua mãe. Depois, ele passou a se importar com ela, mas não queria admitir que a menina de olhos puxados lhe provocava uma sensação boa, então a tratava com arrogância apenas pra ver se mantinha ela distante e continuava a usando apenas para seu benefício. Mas a verdade nunca se esconde por muito tempo e Louis logo dava sinais de que sentia algo a mais e não podia mais suportar ver ela sendo humilhada por culpa de sua própria chantagem. Quem não ama um bom clichê de amor falso se tornando real? É impossível não ficar de coração quentinho ao ir percebendo os sinais que Louis deixava, quando tocaram juntos e ficaram pelo menos alguns minutos sem discutir; quando se mordeu de ciúmes dela na praia e no evento de anime; e, finalmente, quando tomou seus lábios no dia da festa de gala, correspondendo a declaração da própria Mei e contrariando a fúria da sua mãe.

Aliás, vamos ter que falar do monstro, né? Helouise Calvet é a prova de que a falta de amor – inclusive o próprio – é um verdadeiro veneno que corrói a alma e o coração de um ser humano, podendo inclusive o adoecer e o enlouquecer. Ela era a causa de tudo de ruim que acontecia na história, seja fisicamente ou emocionalmente. Helouise nutria ódio pelo próprio filho, que gerou somente com o objetivo de conquistar o homem que amava. Aliás, será mesmo que o amava? Ou o que ela sentia por Jacques era simplesmente fruto do seu orgulho e ego feridos? O resultado do sentimento de amor e reciprocidade que ela nunca havia experimentado. Isso explica o seu enlouquecimento após a morte dele, afinal, em sua cabeça, ele era o único que poderia suprir todo o seu vazio. Mas nem mesmo um filho foi capaz de fazê-lo se apaixonar, o que aumentou ainda mais a frustração de Helouise, que continuava sem saber o que era ser amada – e assim, sem saber o que era amar.

Vou ter que abrir um parêntese para falar sobre Miguel. É curioso e até simbólico que sua primeira aparição para Mei tenha sido justamente em um dos momentos em que Louis agia como idiota. Cheguei a pensar que haveria alguma história de amor entre os dois, mesmo que o casal principal do livro já estivesse formado nas entrelinhas. Eu não estava tão errada. Afinal, quem disse que amor envolve paixão? Na ajuda que Mei prestou no primeiro “encontro” dos dois, no chocolate que Miguel deu a ela da segunda vez, no apoio e nas palavras de conforto após um momento difícil, nas risadas entre as conversas mais engraçadas e principalmente nos conselhos, ali estava o amor dos dois. Eu poderia me estender e falar sobre todos os amigos de Mei: Jess, Victor, Letizia e até o Pierre (embora esse tenha menos impacto na minha opinião). A autora trabalha o amor de várias formas ao longo do livro, e esses personagens, sem dúvida, são a personificação do tipo de amor mais divertido, simples e puro que alguém poderia ter. Amizade é uma das relações mais fortes que se pode ter com alguém e, conhecendo a autora, posso dizer que ela pensa a mesma coisa, por isso faz tanta questão de dar ênfase também ao núcleo de amigos da protagonista, sem deixar tudo focado apenas no relacionamento amoroso, o que traz um clima bastante agradável em várias partes da história.

Depois de acompanhar toda a história, de me apaixonar e me desapaixonar pelo Louis diversas vezes, depois de rir, chorar, me irritar e sonhar acordada várias vezes, o que eu posso dizer é que estou orgulhosa de ser amiga dessa escritora fantástica, que me levou de volta a adolescência e me relembrou que não é só de Lispector’s e Drummond’s que vive a literatura. Às vezes tudo que precisamos são palavras simples, romances clichês e cenas que nos coloquem um sorriso bobo no rosto e nos mostrem que na maioria das vezes só queremos um Sr. Arrogante pra desabafar, uma Mei pra falar de animes, um Miguel pra nos trazer chocolates, e um Louis para nos apaixonar. Literatura é isso. É lembrar do que parece esquecido, é nos olhar pelos olhos de outro, é dar uma pausa no cotidiano. E foi exatamente isso que Porto nos entregou de presente ao escrever. 


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