terça-feira, 29 de março de 2022

A velha mocinha

 



Em uma noite desdormida, quando já estava tão tarde que era quase cedo, li pela segunda vez um conto que me havia feito chorar de primeira. O nome era Viagem a Petrópolis, de Clarice Lispector. Ao final daquela segunda leitura, eu quis que meu texto também se escrevesse ali. Não uma continuação, tampouco uma releitura. Na verdade, eu nem estava preparada pra saber que rumos este texto tomaria. Poderia ser uma resenha informal, ou uma interpretação rasa, um desdobramento ou somente uma sequência de elogios formais. Fosse o que fosse, ali estava o meu Sim.

Comecemos pelo começo: Em Viagem a Petrópolis, Clarice nos entrega dois assuntos já conhecidos por seus leitores: O conflito entre os mundos interno e externo e a invisibilidade. Temas tipicamente Clariceanos. A personagem central é a musa das antíteses que se mostram ao longo do conto, a começar pelo seu apelido, Mocinha, mesmo já tendo mais de 90 anos. A personagem idosa é como um retrato falado de diversas juventudes; invisíveis, sem rumo, sem memórias e nem raízes. Que muito mal expressa seus sentimentos, pois já não se lembra do que é tê-los. Mocinha carrega nas costas uma carga de vivências, ao mesmo tempo que parece um peso morto para o mundo. Dorme de favor nas casas alheias, e durante o dia sai para passear. Sem destino, sem objeto.

Ao longo da história, vemos a vida voltando aos poucos para a senhora. Ela resgata a percepção de sua existência ao constatar a dureza da sua cama e até mesmo a própria fome que até então era despercebida. Momentos antes de viajar, ou melhor, de ter sido despachada, Mocinha reviveu. Reviveu dias pretéritos com seu marido, seus filhos, sua juventude, sua outrora vida, que agora parecia tão alheia. Após reviver, foi despachada como um objeto sem vida. E já chegou sem vida em Petrópolis, embora o texto só constate sua morte na última linha. Apesar dessa morte parecer repentina, ela já vinha sendo preparada desde as primeiras palavras; ao relembrar seus fatos e sensações passadas, a personagem se despedia do que um dia foi uma vida. Sua morte na linha final do texto é tão brusca e repentina justamente porque ela já estava desvivendo ao longo da narrativa – e antes, nas partes que não vimos.

Clarice foi muito perspicaz em cada detalhe desse texto, revelando a percepção gradativa da vida através do processo gradativo de morte. A história de Mocinha é contada como a de uma criança descobrindo o mundo. E se descobrindo gente. Aos poucos, sem pressa, descobre seus anseios internos – sua fome – e os receios externos – limites postos ou impostos.

Se mantivermos essa linha de pensamento, constatamos que a maior parte da obra de Clarice é uma espécie de processo gradativo de morte, compreendendo esta enquanto um destino, mas não como fim. A presença constante de epifanias, despertares, questionamentos irrespondíveis e reminiscências é o jeito clariceano de nos deixar frente a frente com um Algo tão grandioso que só pode estar além dessa existência. Na mesma via, porém em sentido oposto, Platão nos conta que antes de vir para esse mundo, o homem já conhecia o desconhecido, a grandiosidade do mundo das ideias. O que está além de nossa existência carnal já foi visto, é acessado através das reminiscências. Dessa forma, podemos compreender a morte como um retorno ao início, ao Algo. Não é por acaso que boa parte das narrativas, ao descrever uma cena de morte, diz que a vida inteira passa diante dos olhos. Ela é o antes e o depois. Assim como Mocinha, o início e o fim.

Em apenas um conto, Lispector é capaz de definir toda uma vida. É capaz de definir a vida em si, sob o ponto de vista da própria vida. Tudo que eu escrevo ou tento escrever sobre ela parece incompleto, justamente porque Clarice se escreve vivendo. Clarice se escreve até a morte.


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