Em uma
noite desdormida, quando já estava tão tarde que era quase cedo, li pela
segunda vez um conto que me havia feito chorar de primeira. O nome era Viagem
a Petrópolis, de Clarice Lispector. Ao final daquela segunda leitura, eu
quis que meu texto também se escrevesse ali. Não uma continuação, tampouco uma
releitura. Na verdade, eu nem estava preparada pra saber que rumos este texto
tomaria. Poderia ser uma resenha informal, ou uma interpretação rasa, um
desdobramento ou somente uma sequência de elogios formais. Fosse o que fosse,
ali estava o meu Sim.
Comecemos
pelo começo: Em Viagem a Petrópolis, Clarice nos entrega dois assuntos já
conhecidos por seus leitores: O conflito entre os mundos interno e externo e a
invisibilidade. Temas tipicamente Clariceanos. A personagem central é a musa
das antíteses que se mostram ao longo do conto, a começar pelo seu apelido,
Mocinha, mesmo já tendo mais de 90 anos. A personagem idosa é como um retrato
falado de diversas juventudes; invisíveis, sem rumo, sem memórias e nem raízes.
Que muito mal expressa seus sentimentos, pois já não se lembra do que é tê-los.
Mocinha carrega nas costas uma carga de vivências, ao mesmo tempo que parece um
peso morto para o mundo. Dorme de favor nas casas alheias, e durante o dia sai
para passear. Sem destino, sem objeto.
Ao
longo da história, vemos a vida voltando aos poucos para a senhora. Ela resgata
a percepção de sua existência ao constatar a dureza da sua cama e até mesmo a
própria fome que até então era despercebida. Momentos antes de viajar, ou
melhor, de ter sido despachada, Mocinha reviveu. Reviveu dias pretéritos com
seu marido, seus filhos, sua juventude, sua outrora vida, que agora parecia tão
alheia. Após reviver, foi despachada como um objeto sem vida. E já chegou sem
vida em Petrópolis, embora o texto só constate sua morte na última linha.
Apesar dessa morte parecer repentina, ela já vinha sendo preparada desde as
primeiras palavras; ao relembrar seus fatos e sensações passadas, a personagem
se despedia do que um dia foi uma vida. Sua morte na linha final do texto é tão
brusca e repentina justamente porque ela já estava desvivendo ao longo da
narrativa – e antes, nas partes que não vimos.
Clarice
foi muito perspicaz em cada detalhe desse texto, revelando a percepção
gradativa da vida através do processo gradativo de morte. A história de Mocinha
é contada como a de uma criança descobrindo o mundo. E se descobrindo gente.
Aos poucos, sem pressa, descobre seus anseios internos – sua fome – e os
receios externos – limites postos ou impostos.
Se
mantivermos essa linha de pensamento, constatamos que a maior parte da obra de
Clarice é uma espécie de processo gradativo de morte, compreendendo esta
enquanto um destino, mas não como fim. A presença constante de epifanias,
despertares, questionamentos irrespondíveis e reminiscências é o jeito
clariceano de nos deixar frente a frente com um Algo tão grandioso que só pode
estar além dessa existência. Na mesma via, porém em sentido oposto, Platão nos
conta que antes de vir para esse mundo, o homem já conhecia o desconhecido, a
grandiosidade do mundo das ideias. O que está além de nossa existência carnal
já foi visto, é acessado através das reminiscências. Dessa forma, podemos
compreender a morte como um retorno ao início, ao Algo. Não é por acaso que boa
parte das narrativas, ao descrever uma cena de morte, diz que a vida inteira
passa diante dos olhos. Ela é o antes e o depois. Assim como Mocinha, o início
e o fim.
Em
apenas um conto, Lispector é capaz de definir toda uma vida. É capaz de definir
a vida em si, sob o ponto de vista da própria vida. Tudo que eu escrevo ou tento
escrever sobre ela parece incompleto, justamente porque Clarice se escreve
vivendo. Clarice se escreve até a morte.

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